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Dossiê

Page history last edited by simonescherersi@... 3 years ago

 

Em 2007 tive dois alunos especiais na minha turma de 1º ano. Um deles era o V, um menino que vinha da creche, que estudava na sala da minha filha nesta creche municipal. O V tinha dificuldades motoras e também mentais. O crescimento dos nervos e músculos não acompanhava o crescimento ósseo, ou seja, ele não esticava suas pernas, nem totalmente os braços, tinha pouco equilíbrio e não conseguia caminhar sozinho. Durante o ano ele fez duas cirurgias pra tentar corrigir, mas não resolveu, apenas amenizou. Na segunda cirurgia que ele fez, até conseguia dar alguns passos sozinho, mas só com a ponta dos pés apoiados no chão. Era lindo de ver o sorriso e a felicidade dele quando conseguia dar estes poucos passos. Não se entendia praticamente nada do que ele dizia, eu precisava adivinhar muitas vezes o que ele estava querendo dizer. Combinei alguns gestos com ele para facilitar nosso diálogo e funcionou, ele tem uma memória muito boa. Nos dias que eu precisava sair da escola para ir a Parobé no Namp, com meu outro aluno especial, a professora substituta passava trabalho, pois além de não conseguir entender o que ele precisava, muitas vezes ele se revoltava porque não era eu que estava na sala. Várias vezes ele agredia os colegas, pois ele pedia as coisas e os colegas por não entenderem, não alcançavam. Conversamos com os pais, pedimos avaliação escrita e diagnóstica dele, mas não mudou muita coisa. A parte mais difícil da escola pra ele era a hora do recreio, pois ele queria correr e brincar com os colegas, mas não aguentava, não conseguia caminhar por muito tempo nem com nossa ajuda. Este era o maior motivo de revolta, mas não era o único, já que ele não admite receber um não como resposta. Durante o recreio, a professora que estava cuidando do recreio sempre dava uma volta pelo pátio com ele, ou se não pudesse, pedia ajuda pro monitor da 4ª série, mas num recreio, quando nossa diretora estava cuidando, ele já tinha dado uma volta e estava na hora do sinal e ele queria dar outra volta, mas a diretora se abaixou na frente dele e disse que não daria mais tempo, que depois a professora o levaria para a pracinha, como fazia todos os dias. Porém ele não lida muito bem com um não e agrediu a diretora, dando-lhe socos e arranhões. Foi uma situação muito constrangedora, pois estavam todos os alunos no pátio e ela ficou sem ação. Segurou as mãos dele e me chamou, eu o levei pra sala e conversamos muito.

 

 

            Aqui nesta foto, estávamos fazendo brincadeiras lúdicas na área coberta. Esta foto está no meu inventário criativo da interdisciplina de Teatro, do 3º semestre do curso. Nesta foto ele já tinha feito uma das cirugias e os braços já estavam quase totalmente esticados. O V está no chão, com a sua camiseta preferida, observando, tentando entender o que faziam os colegas. Quando se impolgava, participava com interesse, mas na maioria das vezes não era isso que acontecia.

            Confesso que foi um ano muito difícil, pois me sentia perdida, sem saber o que fazer pra ajudar aquele menino, chamei os pais várias vezes, a mãe é uma mulher prestativa e maravilhosa, mas que naquele ano estava passando por um processo de câncer e de quimioterapias, perdeu todo cabelo, a auto estima baixou muito, ela não saia mais na rua, nem pra ir à escola quando eu chamava, ou seja, muitas foram as barreiras, mas com a ajuda de Deus, ela se recuperou e voltou a auxiliar-me na escola, saia junto nos passeios pra levar ele, vinham nas reuniões e participavam do que podiam, mas não de tudo, o que é bem compreensível.

            Relembrando hoje o que mais me marcou neste ano todo de convivência com o V, foi o fato de ter um aluno totalmente dependente de mim dentro da minha sala de aula. Eu tinha que carregar ele no colo até o banheiro, esperar ele ficar pronto, limpar ele, trazer no colo pra sala de aula, passar o tempo todo tentando estimular ele a fazer alguma atividade, já que não se interessava por nada, só amassava os livrinhos e os trabalhinhos que eu oferecia. Tudo o que ele pegava ia pra boca, os materiais dele eu tive que deixar guardado na sala de aula, dentro do meu armário e mesmo assim ele engatinhava até lá e tentava pegar. Por passar a maior parte do tempo no chão, colocamos um tapete no meio da sala e era lá que ele ficava as vezes até dormia deitadinho nas almofadas. Muitas vezes me senti impotente perante aquela criaturinha especial, cheia de limitações, mas que no final das contas tinha um brilho nos olhos quando dava alguns passos, que ria sozinho contando piada, durante as poucas vezes que se permitia participar e que durante a rodinha da novidade, sempre contava pros colegas o que tinha feito na tarde e na noite anterior, só que os colegas não entendiam nada, mas eu tentava decifrar e explicar.

            No dia do aniversário dele, na sala de aula, quis convidar todos os professores e direção da escola, ele estava tão feliz, que não parecia aquele menino que se revoltava tanto com tudo. Tiramos fotos, passeamos pela quadra da escola, fomos pra pracinha, que ele adora, ou seja, tentei fazer de tudo pra que aquele fosse o melhor aniversário que ele poderia ter numa escola e acredito que cumpri minha missão quanto a isso.

            No final de 2007, tínhamos caminhado por todo o bairro, cada semana íamos a uma rua diferente, mas quando o V não estava disposto e já tínhamos combinado a saída, eu pedia um transporte da prefeitura e continuávamos nosso passeio. Fiz um projeto com esta turma: Conhecendo a casa dos meus colegas. Foi muito bem, pois cada vez que saíamos pra passear, íamos até a casa de um deles, ou mais, quando eram próximos um do outro. Desenhávamos o que víamos pelo caminho e o V estava sempre junto, acredito que tenha sido uma boa experiência pra ele e pra todos os colegas.

            A infraestrutura da escola não amparava as necessidades deste aluno no início do ano letivo, mas com persistência e apoio contínuo da direção da escola, nós conseguimos corrimão em todo corredor, rampa nas salas, ou seja, foi um começo. Hoje o V está ainda nesta escola, eu não mais, mas continuo vendo ele e as vezes ele me reconhece, outras vezes não, mas sempre me dá oi com um sorriso e quando falo com ele, fica me olhando como se estivesse tentando descobrir de onde conhece esta voz.

            Dizer que eu consegui fazer um ótimo trabalho com o V é quase exagero, mas acredito que dentro das minhas limitações e das minhas buscas, tentei dar a ele o que realmente precisava naquele momento: atenção, cuidados específicos, incentivo, carinho, amor e dedicação. Fazendo uma autoavaliação, poderia ter buscado auxílio em outras fontes, talvez uma psicopedagoga para me orientar sobre como agir corretamente com o V. Mas uma lição muito importante eu aprendi durante este ano com o V: jamais estaremos preparados para lidar com a inclusão escolar, até o momento que nos depararmos com ela, tendo a responsabilidade de ajudar, educar, amar e respeitar este ser humano com cada uma das suas particularidades, das suas diferenças. Tendo compreendido isto, já não entrarei mais em pânico quando acolher em minha sala de aula um aluno com Necessidades Especiais. Obrigado Deus pela oportunidade de aprender tanto com este menino e por ter me dado paciência e sabedoria pra resistir um ano todo de batalhas diárias, com vitórias diárias.

OBS: sobre o segundo aluno especial, relatarei num próximo momento.

 

Olá!

 

Relatarei o meu segundo caso de inclusão dentro da mesma sala de aula no ano de 2007, um ano cheio de desafios e aprendizagens. Meu aluno A têm dificuldades visuais, no início entrei em pânico, não sabia o que fazer com ele, mas aos poucos fui me acalmando e descobrindo que ele tinha ainda um vestígio de visão, aí fui lentamente remando contra a maré, pedindo uma auxiliar o ano todo e não recebi nada, mas eu tentei e muito. Fui buscando informações a respeito do que ele tinha, chamei a mãe, conversamos horas, li o laudo médico, mas era apenas um atestado na realidade, solicitei um laudo mais específico, porém demorou meses até vir, pois o especialista que o atende é de POA e por condições financeiras muito precárias, a família aguardou o agendamento da consulta pela Secretaria de Saúde de Nova Hartz, o que demorou muito mais do que eu imaginava, mas saiu. Enquanto o laudo não vinha eu is escrevendo grande as letras e frases, o nome dele era tudo o que eu tentava cobrar dele com mais seriedade, já que as demais letras eram desconhecidas até visualmente, o que dificultava muito pra mim. Aos poucos fui lendo sobre o assunto e descobri que só com a letra maior não daria conta de tudo, então pedi socorro pra psicopedagoga do NAE, ela me orientou a entrar entrar em contato com a SMECEL e pedir atendimento no NAMP de Parobé, onde fui muito bem recebida pela professora Mônica, um anjo em forma de gente, popis nunca tinha visto uma pessoa tão calma e dócil com aqueles alunos especiais, aprendi muito com ela, não só sobre o Braile, mas como ser humano, descobri que faltava mais amor em mim, meu medo estava me cegando e eu não sabia por onde ir, então me fechei e graças a esta pessoa iluminada eu me dei conta disso. Passamos um ano todo tendo atendimentos quinzenais, para mim e para o A em especial, assim como a sua mãe também, pois a professora Mônica faz questão de ter os pais próximos para que compreendam a importâncioa da sua atuação diária com a NE. Resumindo, foi um ano árduo, mas gratificante, as vezes tinha vontade de chorar e chorava mesmo, cheguei a pedir pra parar de aula pra minha turma, mas minha diretora me ajudou a perceber que meu trabalho estava dabdo resultados, que os meus alunos especiais estavam melhores a cada dia, mas eu não via assim, estava desesperada no momento que fiz o pedido, mas nada que um dia de folga e um descanso não ajudem a colocar as ideias em dia. Não desisti, esperei o laudo, que veio dizendo que a situação é irreversível, que tem muitas chances de agravar cada vez mais até que não reste nada de visão. Eu não me recordo do nome técnico da doença, só sei que é como se colocássemos um plástico todo resplingado de tinta preta na frente dos olhos e tentássemos enxergar pelos poucos pontos visuais que sobraram. Ou seja,  a situação não era nada animadora, mas bola pra frente. Depois do laudo começamos a aprender braile, no NAMP. Eu me surpreendi com a magia dos pontinhos e sei que isso ajudou muito na aceitação do A e da mãe. Eu e amãe íamos juntas aprender e treinar, foi muito bom, tinha contato direto com a família, conheci as irmãs e pude saber um pouco mais da realidade difícil que aquela família enfrentava diariamente. Enquanto não podia usar o braile, pedi para meu cunhado fazer um perfurador para mim e comecei aperfurar tudo o que o A fazia, letras, trabalhos, desenhos, partes do corpo e muito mais. Confesso que dava bolha nos dedos, mas só de ver a carinha dele ao sentir e falar orgulhoso o que estava alí desenhado já compensava. A cola colorida também não faltou mais no meu armário, usava muito com ele e foi muito prático. Pintei minha sala de verde limão, azul roial e rosa, usando restos de tinta que sobraram da pintura da minha casa. Combinamos que na parede azul ficariam as mochilas penduradas, tendo o nome dele em relevo, de um lado a parede rosa onde ficavam os brinquedos e do outro lado a parede verde, onde ficava o quadro. Ele conseguia se orientar bem, é um menino muito esperto e inteligente, compreende rapidamente tudo que lhe é falado e questionado. Resumindo, minha experiência foi fantástica, pois me senti péssima, sem ação, entrei em desespero, chorei, sofri, tive ajuda das colegas e da direção da escola, tentei mais um pouco, descobri um mundo de possibilidades, aprendi a amar o meu trabalho, mesmo sendo ele bem difícil, aprendi a dar mais atenção, amor e carinho do que conteúdo, fui persistente e contagiei o A, aprendi muito com ele, aprendi mais ainda com a professora Mônica, superei meus medos, fiz um bom trabalho, talvez não o ideal, mas fiz o que estava ao meu alcance, li, pesquisei, estudei, descobri uma nova linguagem, aprendi a guiar um cego e a usar uma bengala... ou seja, foi uma experiência fantástica e riquíssima.

 

     Respondendo a pergunta da professora sobre onde está hoje o meu aluno V:

     O aluno V continua estudando na Escola Imigrante, aqui no município de Nova Hartz, escola que atuei de 2005 à 2007. Ele está cursando o 3º ano, continua crescendo e seu corpo está ainda mais contraído, ele se revolta muito por ter vontade de brincar com os colegas e não conseguir. 

 

Minha Escola...

 

Trabalho no Município de Nova Hartz há 10 anos e já tive vários alunos com NEE em diferentes escolas da rede. Sei que hoje temos muitos alunos especiais, de diferentes idades, com diversas necessidades, desde físicas até mentais em diferentes séries, mas não consegui um número exato. Inclusive o NAE formou recentemente um grupo de atendimento aos alunos com Dislexia.

A escola que estou atuando este ano, a EMEF Maria Almerinda Paz de Oliveira, localizada num bairro distante do centro, próximo a RS 239 bem na entrada do município, porém com uma grande carga de exclusão. Os próprios alunos sentem-se excluídos da cidade, tanto que quando se referem ao centro ou aos demais bairros eles dizem: ‘você mora em Nova Hartz professora? Ou aqui em Campo Vicente?’ Essa pergunta se houve todos os dias, é inevitável, já está internalizado de maneira muito forte, digamos que é cultural já o problema. Confesso que todos os dias eu argumento, respondo corretamente e faço eles me repetirem o porquê da minha contrariedade. Alguns alunos de 5ª série já estão cuidando quando falam comigo, ou seja, alimentam ainda mais minha esperança de que ainda podemos mudar esta realidade. Na minha escola somos em de 42 professores, sendo 1 diretora, 3 vice-diretoras e 2 coordenadoras pedagógicas. A escola funciona nos turnos manhã, tarde e noite, atendendo 579 alunos de pré-escola à 8ª série.

Entre este total, temos dois alunos com NEE mais visíveis e outros que apresentam dificuldades de aprendizagem e são atendidos pelo NAE. Um dos casos é o menino C de uma das 5ª séries, ele tem necessidades físicas leves, podendo se locomover sozinho, mas com algumas limitações, levando em consideração que seu lado direito não acompanhou o desenvolvimento do esquerdo, causando assim um desequilíbrio corporal e uma certa limitação em relação a aprendizagem, ou seja, o processo de aprendizagem dele é mais lento, mas acontece. Além da dificuldade física, o aluno C tem um leve retardo mental e dificuldades visuais, usando óculos com grau muito forte. Outro aluno especial da minha escola é o D, ele é cadeirante devido a Paralisia Cerebral, mas sobre esse eu falarei no meu estudo de caso.

Na escola não temos nenhum tipo de atendimento especializado, nem mesmo uma adaptação do PPP para estas inclusões que estão presentes desde 2005. A avaliação destes alunos é feita conforme a professora consegue, tendo auxílio da coordenação quando solicitado. Este ano teremos conselho de classe com todas as séries, para refletirmos sobre o processo avaliativo e chegarmos a um acordo em relação à avaliação no geral e também destes dois alunos, espero que esta semente germine, pois temos várias idéias e sonhos. Um mudança que considero um avanço na escola este ano é a avaliação qualitativa ser geral para todas as disciplinas e não apenas para alguns professores que julgam importante.  

 

 

Comments (3)

Maria del Carmen Cabrera Martins said

at 12:44 am on Apr 21, 2009

Simone, com certeza fizestes a diferença no desenvolvimento cognitivo do teu aluno, como tu colocou, que sempre te cumprimenta com um sorriso de reconhecendo ou não, mostra que ele no seu intimo se lembra de ti sim, deixaste a semente plantada nele, aos poucos sendo regada, cuidada com carinho ela floresce.
Abraços
Maria del Carmen

liliana said

at 8:23 pm on Apr 23, 2009

Simone

parabens ... a gente percebe quando vocês escrevem com o coração na mão...e ficamos com vontade de saber mais..onde está V agora? o que aconteceu na vida dele?

quero destacar uma frase tua "jamais estaremos preparados para lidar com a inclusão escolar, até o momento que nos depararmos com ela, tendo a responsabilidade de ajudar, educar, amar e respeitar este ser humano com cada uma das suas particularidades, das suas diferenças"
é uma grande verdade...tem se aprende a incluir..incluindo...nos colocando no lugar do outro, numa postura pró-ativa, porque como relatas não é possível esperar que as coisas existam, nós é que temos que provocar mudanças...parabens...e aguardamos ansiosas conhecer teu segundo caso!

Sobre a foto que nao aparece o motivo é que está em formato bmp e precisas colocar ele em jpg...sabes como fazer? eis o desafio..procura descobrir, ou pergunta para Carol ela poderá te orientar....um beijo
lili

Maria del Carmen Cabrera Martins said

at 9:45 pm on May 31, 2009

Olá, Simone, fizestes dois relatos de inclusão acredito que um deles sera o teu estudo de caso, podes me dizer qual é?, deves de escolher um e continuar com ele ate o fim, não é para relatar um caso diferente em casa unidade

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